O poder de comprar à vista

O poder de comprar à vista

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Por Pablo Rogers

 

Essa semana me deparei com um e-mail que me chamou muito a atenção. Meu banco, um dos cinco maiores do Brasil, enviou para mim a fatura do cartão de crédito conjuntamente com uma proposta de parcelamento, caso eu não pudesse pagá-la no vencimento.

 

A conta era mais ou menos assim (considerando valores fictícios para exemplificar): total da fatura para pagamento no vencimento = R$ 387,41, ou 12 x 110,61, ou 36 x 69,27.

 

Apesar de ser professor de finanças e ter conhecimento sobre esse disparate no Brasil, o evento em pauta me fez refletir e me motivou compartilhar algumas elucidações com vocês.

 

O que me refiro, como alguns já perceberam, trata-se do montante de juros que pagamos ao optar por parcelar a fatura do cartão de crédito. Ao longo de um ano pagaria praticamente 3,5 vezes o valor dos produtos/serviços que comprei! Isso mesmo!

 

Os juros astronômicos que sempre vigoraram no Brasil não é novidade para a maioria dos brasileiros, mas o que me deixou indignado na ocasião foi que esse mesmo banco estava veiculando em todas as mídias o quanto estava “nos ajudando” nesse momento de pandemia.

 

Enfim, a despeito de minha frustação com o ocorrido, e com certeza, indignação da maioria de vocês se já refletiram a respeito, o questionamento é: o que isso tem a ver com o poder de comprar à vista?

Pois bem, a resposta para isso, em termos práticos, não passa por entendermos por que os juros são tão abusivos no Brasil ou ficar se lamentando na sua relação com as instituições financeiras. A resposta passa por: Como você pode se ajudar?

 

Mais uma vez vou começar meus argumentos com situações reais, mas valores fictícios! Em dado momento precisei fabricar alguns móveis planejados e um dos orçamentos ficou em R$ 12.000,00. Esse valor o marceneiro dividia em até 6 vezes no cheque.

 

Conversa vai, conversa vem; e depois de muita pechincha, fechamos em R$ 8.800,00, com a metade paga no começo dos serviços e outra na entrega dos móveis planejados. Durante a negociação descobri que ele “descontava” os cheques com “agiotas”, e por isso, havia me dado o orçamento inicial muito superior ao que fechamos.

 

Vejam bem a situação: se eu não tivesse os recursos para arcar os serviços à vista estaria pagando pelo descontrole financeiro do prestador de serviços!

 

O valor economizado nessa decisão de compra foi cerca de 2,5 salários mínimos da época e não tive nenhum problema com o prestador de serviços, apesar do seu valor bem abaixo de todos outros que havia cotado.

 

Na mesma época, devido ao fim de uma reforma em casa, tivemos que adquirir um toldo de passagem de um ambiente para outro. As opções de empresas eram poucas e acabamos optando pela mais renomada. O preço inicial era de R$ 4.500,00 divididos em até 4x no cartão de crédito. Mais uma vez, devido a minha insistência, consegui o valor de R$ 3.800,00 após a entrega dos serviços. Na oportunidade economizei quase um salário mínimo por dispor dos recursos à vista.

 

Com certeza você já deve ter passado por situações parecidas, seja na contratação de um serviço ou na compra de um produto, seja na aquisição de um bem de consumo não-durável, de valor agregado baixo (como roupas), seja na aquisição de um bem de consumo durável, de valor agregado alto (como uma geladeira).

Esses dois exemplos de minha experiência levantam, no mínimo, duas questões: Porque sempre nos oferecem, primeiro, a opção de adquirir o produto/serviço a prazo? Quando eu devo optar por comprar tais produtos/serviços a prazo?

 

A resposta ao primeiro questionamento, menos importante para as ações práticas que desejamos ensinar, passa por questões históricas e estruturais que vivenciamos no Brasil.

 

Sobre uma dessas respostas podemos argumentar que as próprias empresas que nos oferecem os produtos/serviços ganham com o parcelamento das compras, e por isso, nos empurram essa primeira opção. Outro argumento, as empresas por saber da cultura de poupança e poder aquisitivo do brasileiro, dão a opção de parcelamento para facilitar a venda, mesmo que não ganhe nada com isso, pois transfere o financiamento da compra para uma instituição financeira (via cartão de crédito, por exemplo).

 

Quando eu devo comprar a prazo?

 

Se você varrer a internet em busca dessa resposta notará que a grande maioria dos artigos e especialistas relativiza seus argumentos. Quase sempre mostram cálculos financeiros básicos, para entendimento da população, e concluem que DEPENDE.

 

Isso porque comparam os juros economizados com o parcelamento ou desconto por pagamento à vista, ao obtido por um investimento disponível ao comprador, caso ele tivesse o dinheiro para comprar à vista. Concluem, logicamente, que comprar a prazo pode ser melhor do que comprar à vista, caso a taxa de juros obtida com o “financiamento” da compra seja menor do que a taxa de juros do investimento disponível.

 

Outro argumento a favor de comprar a prazo vem da posse de um cartão de crédito com programas de fidelidade, que de uma forma ou de outra (via aquisição de produtos, passagens áreas, pacotes de turismo etc.), retorna parte do valor da compra. Os pontos obtidos com a compra e posterior troca por produtos/serviços seria como se fosse um desconto que deveria computar na hora da decisão.

 

Me pergunto: O brasileiro médio tem o hábito de investir? Ele sabe investir? Quais opções de investimentos ele conhece? O brasileiro médio tem renda suficiente para ter um cartão de crédito que lhe dê um bom programa de fidelidade? Ele sabe fazer esse tipo de conta?

 

Enfim, essas seriam apenas algumas das perguntas que poderíamos levantar, cujas respostas sabemos: NÃO.

Dessa forma, vamos ser práticos e me permita radicalizar: NUNCA COMPRE À PRAZO. Devido a drástica diferença entre taxa de captação e aplicação, historicamente constituída no Brasil, e sem perspectiva que esse cenário mude no curto e médio prazo, o melhor investimento que você pode fazer é SEMPRE COMPRAR 

 

À VISTA.

 

No longo prazo o hábito de comprar à vista poderá fazer você economizar até 10% de tudo que você gasta!

A renda média do trabalho no Brasil é um pouco mais de dois salários mínimos, e como se espera que trabalhamos até os 65 anos e a expectativa de vida é até aos 75 anos, esse hábito pode ser a diferença entre ter uma aposentadoria tranquila ou conviver com os mesmos problemas financeiros que enfrentou ao longo da vida laboral. Ou até mesmo, pode ser a diferença entre se ter um patrimônio para seu conforto e/ou comodidade financeira, mesmo antes da aposentadoria.

 

Para além das explicações financeiras para esse hábito, que para muitos não é uma novidade, no entanto, pode ser controverso, pois para “outros muitos”, em determinadas situações comprar a prazo pode ser mais vantajoso, apresentamos outros argumentos que não são levados em conta nos cálculos financeiros:

 

  • Com a disponibilidade de recursos para comprar à vista você aumenta seu poder de barganha e consegue negociar o preço mínimo que o fornecedor pode vender o produto/serviço. Veja o exemplo de minha experiência acima: ganhei a taxa de juros que meu prestador de serviços pagaria no desconto dos cheques. Ou seja, em algumas situações você pode negociar um desconto condizente com as taxas de captação praticadas no Brasil, que são, consistentemente, maiores que as taxas de aplicações vigentes na maioria dos investimentos, inclusive aqueles com risco elevado;
  • Usufruir do produto ou serviço quando você pagou por ele ameniza a dor da perda ou arrependimento. Quem nunca comprou um produto que não lhe serviu como esperava e teve que lembrar disso, a cada prestação, ao longo de um ano? Imagina a situação de sair de férias, gozá-la em uma semana, e mesmo que maravilhosa, ter que pagá-la pelos próximos seis meses!

 

Enfim, cada um pode lidar com a situação de forma diferente, pois a decisão entre comprar à vista ou a prazo pode ser uma questão mais comportamental do que financeira. No entanto, torna-se seguro afirmar que, no longo prazo, o hábito de comprar à vista será mais saudável para suas finanças na maioria das suas escolhas. Então quer dizer que existem exceções?

 

Sim, até aqui estamos argumentando sobre seus gastos cotidianos ou aquisições de bens de consumo duráveis, não duráveis e serviços de alto ou baixo valor agregado para seu orçamento mensal, e que podem esperar, claro! No caso de bens patrimoniais, tal como um carro ou um imóvel, pode ser que a compra a prazo seja viável financeiramente, devido às menores taxas de juros para esse tipo de aquisição, e do ponto de vista comportamental, o longo prazo de poupança requerido para comprar à vista um imóvel, por exemplo, acarreta um esvaziamento do autocontrole.

 

O autocontrole (para poupar) é um recurso cognitivo finito e de tempos em tempos ele deve ser renovado, pois pode afetar seu autocontrole futuro. Isso significa, por exemplo, que temos que nos presentear num curto espaço temporal pelo esforço de ter poupado (usufruir do tão sonhado produto!).

 

Beleza, mas como fazer para comprar somente à vista? Ter recurso poupado.

 

Talvez essa seja a principal questão e já abordamos no último artigo publicado https://portalnef.org/blog/voce-sabia-que-a-biologia-pode-explicar-nossa-dificuldade-em-poupar/ aqui em nosso blog como essa dificuldade é explicada, inclusive, do ponto de vista de nossa evolução biológica enquanto humanidade.

 

Em um próximo artigo apresentarei uma abordagem prática que poderá te ajudar. Aguardem!

 

Abraços e até logo!

 

 

Pablo Rogers é doutor em Finanças pela FEA/USP. É professor da FAGEN/UFU e pesquisa o tema “Finanças Comportamentais”. E-mail para contato: nef@pontal.ufu.br.